segunda-feira, 14 de outubro de 2024

CACHOEIRA DA CLÍNICA | NOVA VENEZA

 Dia 05 de outubro de 2024, sábado. A data foi estrategicamente pensada pois no dia seguinte, 06 de outubro foi dia de eleições e não realizamos ações nesta data. 

O nosso dia amanheceu lindo! Bem como foi anunciado pela previsão do tempo. Saímos em comboio com dois carros e 8 mulheres de Florianópolis para Nova Veneza, lá se juntou mais uma mulher para fazer a trilha com o grupo.

Criei essa maneira de realizar as logísticas para as ações das Mulheres: as mulheres motoristas do próprio grupo que possuem carro, com seguro e documentos certinhos, fazem fretamento garantindo o transporte e a realização da ação mesmo com um número menor de participantes, que muitas vezes não seria o suficiente para cobrir os custos de uma van, que no caso costuma ser dirigida por um homem, desconfigurando o perfil do grupo das Mulheres na Natureza que oferece atividades de turismo de aventura exclusivo para mulheres. As nossas mulheres motoristas recebem compensações variadas, algumas vezes isenta o pagamento da sua participação na ação, outras vezes recebem também pagamento pelo serviço e dos custos do veículo, conforme cada caso, cada destino, a distância e a estrutura da ação oferecida.

Para Nova Veneza fomos Josete dirigindo o Kicks dela e eu dirigindo a minha Duster, ligamos o Radar But e lá se foi a caravana da alegria! :)

Sem demora fomos para os confins de Nova Veneza no local de início da trilha para a Cachoeira da Clínica, uma estrada que vai, vai, vai... o Morro que a gente via de longe fica pra trás e parece que não chega nunca.... Enfim chegamos na propriedade privada do senhor que nos autorizou a entrada e conversando com a Secretaria da Cultura de Nova Veneza eu soube que ele já foi até prefeito lá, duas vezes.  Em 2023 levei uns 5 grupos de Mulheres para fazer a trilha da Cachoeira da Clínica, em alguma dessas conversei pessoalmente com o proprietário das terras ali. Lembro bem, ele autorizando a passagem nas terras para a cachoeira: "a cachoeira é de todos", mas lembro também de uma outra fala dele: "essa região é pura jararaca!". Depois daquele dia passei a levar as mulheres sempre com perneiras, como guerreiras armadas.

A trilha para a Cachoeira da Clínica é considerada de nível fácil, dá uns 5,5km, ida e volta, mas nunca é de leve! Tudo começa com o desvio das vaquinhas, ali tem criação de vacas leiteiras, são muuuitas! Junto disso, precisamos identificar os arames com choque para atravessar, tudo isso enquanto tentamos não atolar as botas na mistura de lama com bosta de vaca logo nos primeiros metros. Nunca é de leve! Passados os primeiros desafios da estrada, chega o momento que precisamos atravessamos um riacho que estava meio cheio porque choveu durante a semana e encheu mais a Cachoeira e o riacho, quem conseguiu não molhar as botas, ótimo! quem não conseguiu passar sem molhar as botas, paciência. Porque logo mais iria atolar no barro igual. 

Quero salientar um fato que ocorreu logo ali neste ponto do riacho. Estávamos nós, as 9 mulheres, caminhando em direção ao riacho para atravessar, quando do outro lado do riacho vinha voltando da cachoeira um casal jovem, o rapaz nos viu e não se conteve em falar: "vocês têm sorte eu já fui, porque a trilha está bastante fechada e eu tive um trabalhão para liberar a passagem". Ora, veja, posso falar?  A vontade era de dizer praquele guri: "escuta aqui o piá de merda, nós iríamos passar de todo modo porque eu mesma irei abrir a trilha para as Mulheres, deixa de ser machista e de pensar que nós não daríamos conta! Somos 9! não se aguenta de ver um grupo de mulheres que já se acha galo?! Passa daqui!" Isso que eu queria ter dito à ele, massss para não causar um clima ou algum desconforto para as mulheres, apenas ignorei e passamos reto. Queria mesmo é derrubar ele no riacho.

Na trilha parecia que tinha passado um ciclone, muitas árvores caídas na trilha e mato bastante fechado, ativamos a mulher-elástica e passamos cada uma no seu estilo pelos obstáculos. Enfim, a majestosa Cachoeira da Clínica, que festa! que alegria! foto, foto, foto, vídeo, vídeo, mais foto... 

Na volta a novidade foi uma serpente na trilha, tinha um meio metro, grossa assim fechando o polegar com o indicador, marrom, estava na minha frente, santo bastão de caminhada que chegou antes que meus pés, dei-lhe um grito e fui para trás! deixa a guria passar, e lá foi ela  mais assustada do que eu. Essa foi a conversa até o final da trilha, algumas não quiseram mais nem fazer xixi no mato. Quero te dizer que em 12 anos andando pelos matos, pelas montanhas e pelas trilhas, vi apenas duas serpentes. Eu vi uma serpente pequena na trilha da visita técnica do Monte Crista e aqui na trilha da Cachoeira da Clínica, ação oficial de número 166 na contagem. É realmente muito difícil de encontrar, mas bem que o senhor lá me avisou.

Na volta, muito perto do término, quando se pensava que já estava tudo certo, era só chegar, mais um desafio. Todas as vacas se juntaram na porteira de passagem para chegar, eram mais de 100 vacas, não tinha espaço para nós passarmos. Precisei inventar um desvio na hora, fomos pelo campo ao lado, fomos caminhando pelo desvio tra-lá-lá com todas as vacas nos olhando, tra-lá-lá quase chegando e atolamos as botas de novo! atolamos todo o pé! que delícia! Viva a torneira que tinha lá no terreno da casa do caseiro.










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Meu nome é Ione Maculan, sou guia de turismo de Santa Catarina e idealizadora das Mulheres na Natureza e escritora desse blog.

As histórias são todas verdadeiras porém são escritas sob meu ponto vista.

As fotos são de uso exclusivo das Mulheres na Natureza, não podem ser copiadas ou reproduzidas por qualquer motivo e de qualquer maneira, sob pena de agravantes judiciais.

CARA, CARAMBA CARA CARA OOOO!!! É O CARATUVA!

O Pico Caratuva é o segundo mais alto do sul do país, com 1860m de altitude, localizado logo ali ao lado do monstrão, o Pico Paraná, entre os municípios de Campina Grande do Sul e Antonina. Para essa figurinha importante para o álbum de aventuras, formamos um time de 8 Mulheres: Adriana da Rosa Pacheco, Deise Deusa, Elizete Soares Girardi, Fabrielly Mauren, Mara Beatriz da Rocha, Maria Inez Arantes, Paola Helpa e sua Guia aqui Ione Maculan. A maioria mulheres participantes ativas das nossas ações, parte da tropa de elite das Mulheres na Natureza e tigras de montanhas grandes, que já compartilharam muitas vivências em cumes, travessias e acampamentos raiz.

Exatamente às 01h00 da madrugada de 17 de agosto eu dei "Olá" no grupo e assim "apertei o play" dessa ação. Embarcamos em 5 mulheres na camioneta "Black Shadow", rumo ao Paraná. Rodados 325 km, com o dia já amanhecido, encontramos as outras 3 mulheres que vieram de Curitiba num paradouro popular da Serra da Graciosa. Dalí dirigimos mais uns 27 km, em direção à base da montanha.

Com os carros já estacionados, na base da montanha, era hora de passar as mochilas cargueiras na "alfândega", aquele momentinho de pesar as mochilas. Momento esse que demorou além da conta, pois tive mais trabalho do que eu imaginava, pois foram necessários mais do que argumentos lógicos para que elas aliviassem o peso das mochilas, estavam resistentes e teimosas e a negociação para diminuir a bagagem foi tensa. Por causa disso atrasamos o início da caminhada.

O calor fora de época,  a distância, a altitude e o peso das cargueiras foram alguns dos fatores que fizeram com que levássemos mais tempo para chegar no cume do que estava previsto, a previsão era de chegar ao cume em 5 horas e chegamos em 7 horas. Não foi fácil. Tivemos que levar muita água para dar conta da subida naquelas montanhas secas, passar à noite e retornar no outro dia. Cada mulher levou 3,5 litro de água. 

Na chegada ao cume, a Mara fez as honras de colar o adesivo das Mulheres na Natureza no painel dos grupos de montanhas, foi um ritual bonito e emocionante, esse é um cume especial e a Mara é uma guerreira. Na saída do cume quem colou o nosso adesivo foi a Elizete, agora fizemos parte do roll de grupos de montanhas que já estiveram no Caratuva. 

O cume estava "crowdeado". Pela quantidade de gente lá em cima ficou parecendo que até era fácil de chegar. Super lotado, não conseguimos montar as barracas juntas, ficamos separadas em dois grupos. Do cume do Caratuva se vê em frente o Pico Paraná, que monstrão! Esse sim é difícil de chegar! por isso que o Caratuva está mais cheio, concluí. Fiquei encarando o PP e lembrando que as Mulheres já estiveram naquele cume, a 1877m  de altitude, o mais alto do sul do Brasil, no ano passado, em 2023! Lembro de cada etapa da trilha e do acampamento como se fosse ontem. 

Juntamos todas para preparar o jantar, a votação venceu macarrão com molho de tomates e queijo, cada uma fez uma parte, ficou ótimo! Enchemos as pancinhas de macarrão e fomos dormir.

Assim como o dia, a noite também foi quente, em pleno agosto.

Paola, Fabrielly, Mara e eu dormimos em um terreno inclinado onde passamos a noite "arrastando o corpo pra cima" dentro da barraca. Eu e Paola já rimos muito dessa situação, sempre que lembramos. 

É cada uma que nos acontece! Quanto mais montanhas subimos, mais histórias criamos. Nunca é somente a trilha, a montanha e a parte técnica, sempre surgem muitos fatos inusitados, situações diferentes e muitas histórias engraçadas! Lá pelas tantas, seja pela altitude ou pelo cansaço, começamos na palhaçada e tudo é motivo para risada alta. São em situações extremas, de grande desgaste físico e de perrengues que conhecemos verdadeiramente as pessoas, consigo separar aquelas que já são mais desenvolvidas em habilidades como autocontrole, controle emocional, trabalho em equipe e autoresposabilidade, daquelas que ainda têm muito a aprender. Certamente, a montanha nos ensina grandes lições, é ela quem avalia com verdade o nosso condicionamento físico, é ela que mede a nossa resistência física e emocional. Para a Guia aqui, mais fácil é organizar a ação, fazer visita técnica, avaliar previsão do tempo, calcular trajetos, identificar os pontos de água, ou a inexistência deles, como foi nesse caso, do Caratuva (zero pontos de água para uma montanha tão alta), fazer cronograma e trabalhar o grupo entregando muitas informações para que as participantes sejam assertivas. Difícil é lidar com os abalos emocionais e perturbações individuais de cada uma, muitas vezes tem treino e condicionamento físico e falta o controle emocional, outras vezes falta tudo. Afinal de contas, cada uma tem um limite, e para os destinos mais incríveis melhor levar somente aquelas que possuem limites beeeem longos.

Eu sinceramente admirei muitas mulheres do grupo que chegaram ao término dessa ação no dia seguinte, lá no pé do Morro do Getúlio, brincando e festejando mais uma conquista! Essa ação foi importante! Foi uma ação muito linda e marcante! Mas também muito cansativa! Porém teve também quem desceu no ranço e na cara feia. Cada uma dá o que tem. Imagina agora se tivesse subido o Morro com aquela carga toda antes da "vistoria da alfândega".

Engraçado foi a chegada no barzinho do estacionamento, a sede era tanta que os pedidos eram tipo assim: "eu quero duas cocas, um isotônico e uma água" hehe

Seguem algumas imagens de uso exclusivo das Mulheres na Natureza, proibida a cópia ou reprodução para qualquer fim:






















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Meu nome é Ione Maculan, sou guia de turismo de Santa Catarina e idealizadora das Mulheres na Natureza e escritora desse blog.

As histórias são todas verdadeiras porém são escritas sob meu ponto vista.

As fotos são de uso exclusivo das Mulheres na Natureza, não podem ser copiadas ou reproduzidas por qualquer motivo e de qualquer maneira, sob pena de agravantes judiciais.

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