Travessia da Serra do Tabuleiro 29, 30 e 31 de julho de 2023.
1º dia - 9km
Algumas mochilas estavam exageradamente pesadas e foram abertas para conferência e, a tempo, foi feita a seleção do que fica e do que sai. A mochila deve ficar o mais leve possível, para passar três dias sobre as montanhas a seleção do que levar precisa ser refinada, precisa aprender a desapegar. Depois de tanto tempo trabalhando com mochilas cargueiras, só de erguer uma mochila eu já consigo estimar o peso dela, mas para comprovar tenho comigo uma balança de mão digital. Uma das mulheres falou que é o momento "alfândega". Elas não gostam quando eu tiro a carga extra das mochilas, me olham feio, mas na subida da montanha também tem quem agradece.
A van partiu com um time de 13 mulheres para o ponto de início da travessia de três dias sobre as montanhas da Serra do Tabuleiro. No caminho o amanhecer confirmava a previsão do tempo de um dia lindo e aos poucos se abria um céu azul. A aventura começou já na estrada quando a van começou a patinar e não subiu a estrada escorregadia pela terra molhada, então tivemos que caminhar um pequeno trecho para a van ficar mais leve, ainda bem que a van conseguiu nos levar até o ponto de início, faltava mais de 5km. Ufa!
Antes do início da caminhada fizemos os nossos consagrados rituais, sempre adaptados para cada tipo de aventura, e lá fomos nós rumo a três dias sem sinal de celular e de caminhada sobre as montanhas, mas não somente sobre as montanhas, pois para se chegar lá em cima tem diversos tipos de terrenos, desafios e perrengues que põe a prova as novatas e as mais preparadas e experientes também, pois nenhuma subida é igual e no campo dos deuses das montanhas, são eles que mandam.
Quando estamos em um grupo exclusivamente feminino podemos fazer coisas que não seriam possíveis em grupos mistos, como conversar livremente sobre assuntos femininos, atravessar o rio usando somente calcinha na parte debaixo para não molhar as calças, trocar a blusa ali mesmo ou ainda fazer xixi sem se esconder tanto assim. Por falar em xixi umas das novidades dessa travessia foi o urinol feminino, adoramos! Podemos fazer xixi até dentro da barraca com o urinol e uma garrafinha plástica, apelidada de "pipi tank", um sucesso!
Sobe, sobe, sobe... e chegamos nos campos de altitude. Paramos para almoçar na "jacuzzi", que é a primeira fonte de água já nos campos de altitude. Na travessia tudo que se vê e tudo que se passa, passa. Travessia significa que a gente sobre em um ponto da montanha e atravessa para outro ponto. Pelas paisagens passamos somente uma vez. A cada poucos metros muda tudo, sai do mato, chega nos campos de altitudes, caminhando lá em cima montanhas gigantes aparecem e outras vão sumindo no horizonte.
O objetivo do 1º dia é chegar até às 15h00 no acampamento 1, o grupo chegou às 14h30. Montamos as barracas no formato circular, todas as portinhas viradas para o centro, deixamos um espaço no meio para área de convivência.
No centro, na área de convivência, comemorarmos o aniversário da Teresa, ela recebeu balões, cupcake com velinha, chapéuzinho de aniversariante, parabéns cantado em duas versões e uma homenagem com dança de guerreiras inspirado na tribo Tupi Guaranis com as vogais do nome da Teresa. No centro também fizemos o jantar, risoto de funghi e tomates seco, um esforço em dois fogareiros com a ajuda das voluntária que picaram as cebolas e eu e a guia Franciele pilotamos os dois fogareiros.
Tenho certeza de que terei lindas fotos dessa travessia pois a Inez é a nossa fotógrafa voluntária dessa expedição e ela costuma fazer umas fotos muito legais!
Ana Rita estava em sua 2ª travessia e dessa vez "veio para se divertir", e assim fez enquanto acompanhava de perto a experiência da amiga Elizete que estava sendo iniciada na travessia. Ana Rita prestou "consultoria", incentivou e ali na montanha estava sempre junta da Elizete. Meu coração se enche de alegria quando as mulheres convidam as amigas porque querem que elas também experienciem algo assim, tão diferente, tão grande e tão transformador.
As amigas Ana Rita e Elizete dividiram a barraca
Assim que anoiteceu, elas se recolheram para as barracas, montadas no lindo formato circular, ligaram as lanternas e ficaram conversando de dentro das barracas. Eu fiquei lá fora falando que no céu tinha 1 bilhão de estrelas e que não estava tão frio assim, mas ninguém se animou a ficar lá fora mais um pouco, depois de um tempo eu também me recolhi, mas não antes de passar a ronda e conferir tudo. A noite estrelada foi fria e teve um pouco de vento, dormir em barracas é uma arte que se desenvolve com o tempo.
2º dia - 7,8km
O amanhecer foi um espetáculo! Raios dourados surgiram no horizonte às 6h40 da manhã do dia 30 de julho de 2023, sobre as montanhas da Serra do Tabuleiro.
No sobe e desce das montanhas do segundo dia teve quem passou mal. Quando uma integrante do grupo passa mal, seja pelo motivo que for, colocamos as nossas boas práticas em ação e os itens da mochila da mulher que não está bem é redistribuído entre as voluntárias. Aqui somos uma por todas e todas por uma. Hora a mulher é ajudada, logo mas se reestabelece e passa a ajudante. Sobre as montanhas no meio do nada todas nos protegemos o tempo todo, dando a mão e nos ajudando.
A parada para o "almoço" foi num trecho que eu considero bastante especial, uma vista ampla com montanhas para a direita e para a esquerda e bem na frente e muito perto uma montanha gigante. Caminhar nos campos de altitudes é sobe e desce de montanhas, na maioria dos trechos abertos com exposição de sol e vento, poucos trechos com "mini-matos", apelido carinhoso que dou aos trechos que passamos por entre matinhas. Para quem caminha comigo vai aprendendo as nomenclaturas: mini-mato, brócolis, pedra do pênis, dedos do gigante, pedra da Tigra, pedra da perereca e o castelo. Neste trecho do segundo dia as mulheres batizaram um conjunto de pedras ainda sem nome de Luzia. Parecia uma cabeça, uma mulher pré-histórica. Nomeando e brincando a gente chegou no acampamento 2 às 15h30 em ponto.
No acampamento 2 a distribuição das barracas foi em duas fileiras, devido ao terreno inclinado, as cabeças para cima e os pés para baixo. Depois de montar as barracas fiz um café e sentamos no sol compartilhando lanchinhos de trilha, depois a Ana Plentz dirigiu uma aula de yoga pra gente se alongar e relaxar, foi ótimo!
Acampamento 2
Enquanto a noite se aproximava já começamos na função do jantar, as voluntárias picaram com capricho as cebolas e os tomates para eu fazer um molho de tomates que foi servido com massa e queijo ralado por cima. Elas adoraram! Ficou mesmo bom. Ana Rita, que esteve na travessia ano passado, comentou que evoluiu o nível do jantar com massa, costumeiramente oferecida na segunda noite de travessia. Estávamos lá na segunda panelada de massa com molho quando fomos surpreendidas por um rato do mato que passou correndo na "cozinha" assustando a mulherada! Nós que estamos preparadas para encarar Leão Baio não esperávamos a visita de um animal tão pequeno que parecia um brinquedo de corda correndo prá lá e pra cá por entre as nossas pernas, hora descontrolado por pouco não entrou dentro da panela de massa. Passada a travessia, me chegou a informação de que se trata de um rato do mato Delomys sublineatus. Essa foi boa!
Após o jantar muitas entraram nas barracas e eu mais umas seis fizemos uma roda para ouvir uma história de montanha, eu contei a história real do caso do desaparecimento do escoteiro Marco Aurélio no Pico dos Marins em 08 de junho de 1985. Uma história que me fascina há uns dois anos desde que eu soube, desde lá devorei todo material encontrado sobre o caso, e certamente foi por isso que elegi o Pico dos Marins como destino de mais uma aventura para as Mulheres na Natureza nos próximos dias 02 e 03 de setembro.
Naquele clima de suspense pela história contada uhhhuuuuuuu conseguimos ir para as barracas hoje não tão cedo, era umas 20h20 :)
Deitada para dormir eu ouvi um grito pavoroso vindo do outro lado da montanha, deixei prá lá. Mas logo num curto tempo de uns 15 minutos ouvi novamente. Nesse caso não tem o que fazer, só torcer para não ouvir uma terceira vez.
Na manhã seguinte conversando, a Jucilaine e a Ana Plentz também ouviram os berros.
3º dia - 9km
Acordamos às 6h30, dia de amanhecer com a joelheira vestida por causa do descidão previsto para o terceiro dia. Logo estávamos todas fora das barracas na função. A noite foi fria mas não geou. Em acampamento sempre tem bastante trabalho: lavação de "louças" (plásticos e panelas), montagem ou desmontagem de barracas, organização de equipamentos, buscar água no riacho, entre outros. Eu no papel de guia, organizadora, gps, chefe do acampamento e chefe de cozinha já comecei logo a lida na "cozinha", o café da manhã nos dois dias é crepioca com farinha de tapioca, muito ovo e muito queijo. As mulheres precisam ser bem alimentadas, precisam ficar bem nutridas para terem força para caminhar e carregar as mochilas pesadas, tudo estratégico.
Começamos a caminhada às 9h, no caminho nomeamos mais um conjunto de rochas - "teta de vaca", sugestão de Ana Rita.
Logo mais pra cima passamos pela pedra da "Tigra deitada", a pedra da "perereca" e enfim chegamos no platô, ponto perfeito para a foto do grupo. Dali pra frente é dali pra baixo.
Concentração máxima no primeiro momento da descida, a guia Franciele se posicionou na organização para passarem uma-a-uma, eu me posicionei no meio, no penhasco e a Ana Rita se ofereceu para ajudar também, se posicionou numa descida mais pra baixo. Em zonas de risco a equipe precisa estar bem afinada e a seriedade acentua a concentração. Sucesso. Todas as 13 passaram certinho e "de boas" pelo trecho que eu me preocupava. Depois disso, tocamos direto por 1h30 descendo do cume, paramos pontualmente às 13h numa área de mata refrescante com espaço para todas, pois até ali era descampado e com o sol cravando. Essa descida do terceiro dia é bem exigente, costuma comer os joelhos e a ponta dos dedos dos pés, teve quem sofreu nessa descida também. A guia Franciele, minha parceira nessa travessia, estava lá segurando as pontas na retaguarda, ajudando quem tinha alguma dificuldade no fim da fila. A guia Franciele tem muita experiência no ambiente natural e é muito profissional, ela já havia feito essa travessia comigo ano passado. De pouca fala, as vezes aguenta algumas coisas calada que eu não teria tanta paciência. A guia Fran tem todo cuidado e jeito com elas, e as mulheres gostam muito dela.
A foto oficial do grupo na Travessia
As Guias credenciadas do Parque Estadual Serra do Tabuleiro Franciele Oliveira Dias e Ione Maculan
A partir do rio a descida diminui e a lama aumenta, uma atolação geral que revezava com pedras lisas e escorregadias onde algumas caíram.
Levei oito mulheres na frente até o ponto final para garantir a espera da van e voltei para buscar as outras quatro, mas deu desencontro e quando retornei à Igreja já estavam todas lá. Inclusive a van e o motorista. E ele trouxe as coca-colas que eu encomendei para elas que desceram a montanha pedindo aos deuses coca-cola gelada... Que festa! Que alegria!
Não encontrei as palavras suficientes para parabenizá-las, as mulheres que passam três dias sobre as montanhas nunca mais serão as mesmas, mas elas mesmas deverão perceber as profundas transformações que vão acontecer, por enquanto elas irão passar os próximos dias reflexivas, lembrando e assimilando a grandeza dessa experiência.
término da atividade
"Não existe mulher fraca, existem mulheres que ainda não descobriram a sua força!"
Guia Ione.
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Meu nome é Ione Maculan, sou guia de turismo de Santa Catarina, idealizadora das Mulheres na Natureza e escritora desse blog.
As histórias são todas verdadeiras porém são escritas sob meu ponto vista.
As fotos são de uso exclusivo das Mulheres na Natureza, não podem ser copiadas ou reproduzidas por qualquer motivo e de qualquer maneira, sob pena de agravantes judiciais.












