quarta-feira, 13 de setembro de 2023

MISSÃO MARINS

PICO DOS MARINS, Piquete, SP 

Dias 02 e 03 de setembro de 2023

Ainda consigo sentir a ansiedade e a euforia da viagem de ida. Ainda ouço as risadas delas no ar e facilmente consigo acessar as imagens que ficaram gravadas na minha mente, a agitação do entra e sai dos ônibus, dos paradouros e das rodoviárias, quando lembro da aventura no Pico dos Marins.


Você acredita naquela frase: "Muito cuidado com aquilo que você deseja"? Era 28 de junho desse ano quando eu voltava com um grupo de Mulheres de Urubici, tínhamos feito lá a trilha da Pedra Furada, e no carro, enquanto eu dirigia, eu explicava sobre as próximas aventuras das Mulheres que estavam por vir, foi então que eu falei da seguinte maneira sobre o Pico dos Marins: "que nós vamos, nós vamos! Se não for de van, vamos de camioneta e se formos de camioneta vamos de ônibus de linha". Pois, não é que aconteceu isso mesmo!

Quanto mais alta e longe a montanha, menor é o grupo. Por vários motivos, o principal é que são poucas as mulheres preparadas com condicionamento físico e psicológico para enfrentar grandes montanhas. Então, para o Pico dos Marins, formou-se um grupo com cinco mulheres: Geisa de Oliveira, Jucilaine Zucco, Maria Inez Fontanelle Arantes, Paola Fátima Helpa e a Guia que vos escreve Ione Lairâne Maculan.

O Pico dos Marins é uma montanha imponente com 2420m de altitude, muito famosa em São Paulo também pelos sinistros que protagoniza, em especial me chama a atenção a agoniante e viciante história sobre o caso do desaparecimento do escoteiro Marco Aurélio em 08 de junho de 1985. E certamente a motivação por essa história fez com que eu sugerisse esse destino no calendário de montanhas das Mulheres na Natureza.

Florianópolis - São Paulo - Lorena - Piquete - Base dos Marins - Pico dos Marins

Foram 16 horas de viagem de ônibus até Piquete. O custo para ir de avião seria muito alto, de carro seriam muitas horas de direção, de van não fechou turma para cobrir os custos, então restaram duas opções: não ir ou ir de ônibus de linha. Você deve estar pensando: "É muito querer subir uma montanha". Apenas as montanhistas entenderão o esforço. Esse esforço é digno (e eu diria até proporcional ao tamanho da montanha) da conquista da figurinha dourada para o álbum de aventuras. Quem pratica turismo de aventura acostuma (ou vicia) com a adrenalina nas veias, como a gente se sente lá em cima no cume é que justifica mas também pouco é possível traduzir em palavras, precisa viver o montanhismo para compreender o nosso esforço para essa viagem.

Abaixo, na chácara do Guia Lucas Peixoto em Piquete: Lucas, Inez, Paola, Geisa, Guia Ione, Jucilaine e o visitante ilustre Rodrigo Nunes, escritor da triologia dos livros Operação Marins.


Aqui nessa foto acima já estávamos prontas, em posição de largada, ansiosas para começar de uma vez a caminhada, objetivo desde a saída de Florianópolis. E lá fomos nós para a base dos Marins.

Na base dos Marins passamos pela famosa casinha do "Seu" Afonso, o mateiro do caso do escoteiro Marco Aurélio. Assustadora.

Começamos caminhar pelas 21h, tudo indo bem noite a dentro, montanha acima, inclusive fomos "freadas" pelo Guia Lucas porque estávamos indo bastante rápido e chegaríamos muito cedo no cume e lá seria muito frio. 

Às 02h40 da madrugada estávamos à 1h do cume e foi neste momento que duas situações inesperadas aconteceram: sentimos uns pingos de chuva e encontramos três rapazes perdidos no nevoeiro. A previsão do tempo não apontava nenhum pingo de chuva. Ao sentir os pingos de chuva acompanhados dos trovões imediatamente determinei a volta do grupo.

Todos demos meia volta e começamos a descer, trazendo em anexo os três irmãos perdidos, que ficaram imensamente agradecidos por terem sido "resgatados" e se ofereceram para carregar algumas mochilas das mulheres, como oferta agradecimento. Olhando agora para isso posso pensar também que talvez tenha sido essa a nossa missão naquela noite, de resgatar os três rapazes perdidos na montanha. Nada é por acaso.

Os pingos viraram tempestade com fortes rajadas de vento e assim descemos de volta a montanha praticamente toda, abaixo de tempestade com fortes rajadas de vento, com três rapazes em anexo, sem parar de caminhar para não dar hipotermia. 

Caminhamos até o amanhecer, chegamos de volta na base às 7h, encharcadas, tudo molhado, totalizando uma jornada de 10 horas de caminhada, sendo que na volta, sem paradas para descanso e comer.


As risadas na foto são porque chegamos todos bem, as Mulheres, o Guia dos Marins - Lucas Peixoto e Leandro Peloggia, que trabalhou com o Guia Lucas fechando a trilha. De todo modo foi uma grande aventura, mas não alcançamos o cume. 

Levamos uma surra dos Marins, talvez tenhamos passado aquele portal mencionado em algumas narrativas sobre o desaparecimento do escoteiro Marco Aurélio e tenhamos ido para outra dimensão.
 Saí dos Marins com mais interrogações do que cheguei e preciso voltar lá novamente. Todas nós ficamos com esse sentimento de uma história inacabada com os Marins.

E lá fomos nós para a jornada de volta:
Pico dos Marins - Base dos Marins - Piquete - Lorena - São Paulo - Florianópolis 


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Meu nome é Ione Maculan, sou guia de turismo de Santa Catarina, idealizadora das Mulheres na Natureza e escritora desse blog.

As histórias são todas verdadeiras porém são escritas sob meu ponto vista.

As fotos são de uso exclusivo das Mulheres na Natureza, não podem ser copiadas ou reproduzidas por qualquer motivo e de qualquer maneira, sob pena de agravantes judiciais.

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